O duende
Fazia apenas uma semana que ela tinha se mudado. Lana estava feliz por finalmente ter realizado o sonho do intercâmbio próprio. Estava em Dublin e aproveitava cada momento daquele país mágico que em vários pontos remetiam a lendas da infância, histórias que sua mãe sempre contou.
Tinha certeza de que seria um semestre incrível. Estava adorando a faculdade e estava frequentando um curso de gaélico, que era mais uma forma dela aprender o máximo possível sobre a cultura local. Surpreendentemente, começou a gostar de cerveja. Ou pelo menos, de Guinness.
Tudo naquele lugar a fascinava e parecia que Lana estava vivendo um conto de fadas. Até o primeiro aborrecimento. Como todos os dias, ela acordou atrasada para pegar o ônibus da faculdade. Quando saiu do seu quarto, reparou que tinham alguns copos na mesa da cozinha. Estranho… Ela morava sozinha e tinha certeza de ter organizado tudo no dia anterior. Bom, talvez estivesse enganada.
Depois de um dia de estudos, seguido por um passeio no Dublin Castle, ela chegou ao seu apartamento. Um pouco desconfiada, deu uma boa olhada na cozinha. Felizmente, tudo estava como ela havia deixado. Talvez fosse apenas uma bobagem.
No dia seguinte, mais uma vez saiu atrasada. Deu uma pequena volta pelo apartamento e estava tudo em ordem na cozinha. Mas não na sala. As almofadas do sofá estavam cada uma para um lado. Agora, ela estava ainda mais perdida, porque poderia ter se confundido da primeira vez, mas duas, era impossível. Tinha certeza de que alguma coisa aconteceu.
Será que ladrões tinham invadindo a sua sala? Ela checou a porta e não tinha nenhum sinal de arrombamento. Realmente não faria sentido alguém invadir o apartamento dos outros só para bagunçar e ir embora. Lana olhou para o Leprechaun de pelúcia que tinha comprado logo que chegou e pensou: os únicos que fariam isso eram os duendes, que sempre ouviu sua mãe falar.
O que era aborrecimento se transformou em empolgação. Que demais, duendes morando com ela. Será que isso era comum na Irlanda? E todas as casas tinham seus próprios duendes? Ainda nem tinha encontrado um trevo de quatro folhas e já estava com sorte. Ela precisava dar um jeito de interagir e confirmar a presença daqueles seres. Então, teve uma grande ideia: antes de dormir, deixou um prato com alguns biscoitos doces na cozinha.
No dia seguinte, Lana acordou ansiosa. Não pela faculdade, nem pelos passeios turísticos que poderia fazer. Mas pelo que poderia encontrar dentro do seu próprio apartamento. E logo que chegou à cozinha, começou a comemorar. Os biscoitos todos haviam sumido. O chão estava um pouco sujo com migalhas, é verdade. Só que o mais importante era a prova da presença dos seus convidados ilustres. Seres mágicos não precisam seguir regras de etiqueta.
Algumas semanas se passaram e, toda noite antes de dormir, Lana deixava biscoitos para os duendes. Ainda era um segredo, afinal, quem iria acreditar nela? Será que a sua mãe acreditaria? Ou pensaria que sua filha está inventando coisas por se sentir solitária?
Não importava mais, ela não aguentava mais esconder o que estava acontecendo. Nem sabia como aguentou por tanto tempo.
Da próxima vez que fez uma chamada de vídeo com sua mãe, ela disse que tinha uma novidade para contar. A mãe esperou que pudesse ser qualquer coisa: Lana estava grávida, decidiu mudar de país todos os meses até conhecer o mundo inteiro, estava fazendo um curso de arco e flecha para participar dos próximos jogos olímpicos. Qualquer coisa era mais provável do que a real novidade.
Logo depois de falar com sua mãe, Lana ficou pensativa. Sua mãe parecia ter razão… Os biscoitos que eram sempre comidos não eram uma confirmação. Podiam ser ratos, mesmo. A bagunça e o prato quebrado em uma das noites explicava isso. E ela iria desvendar o mistério do rato-duende de uma vez por todas.
Lana acordou empolgada porque o mistério iria finalmente acabar. Foi até a cozinha e, como esperado, os biscoitos tinham desaparecido. Só que dessa vez, uma câmera estrategicamente posicionada revelaria a verdade.
Pegou a câmera e foi ver a gravação. E descobriu que seu primeiro palpite, por mais improvável que fosse, era o correto. Era um ladrão. Um ladrão que só roubava comida. Mas não era um rato. Foi assim que, Lana descobriu porque estava engordando, aparentemente sem motivo. Durante todo aquele tempo, o sonambulismo fez dela o seu próprio duende.
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